Lavagem de Itapuã: O religioso X O profano

É no verão de Salvador que a mistura musical acontece. Turistas de outros estados e países se unem aos baianos para participar das festas que apresentam novos ritmos ao repertório do público. Ao contrário do que parece, esta não é a descrição do Festival de Verão nem dos ensaios de Carnaval, que reúnem axé, pagode, arrocha e uma infinidade de estilos musicais. Trata-se da mistura de sons produzidos pelos toques do agogô e do atabaque, pelos passos dos fiéis nas ruas e hinos em louvor aos santos e orixás da Bahia.

Antes de abrigar a temporada de shows, o verão já era a época das tradições populares e religiosas, iniciadas com a festa de Santa Bárbara, no dia 4 de dezembro. A partir dela, outras celebrações são realizadas até o Carnaval. Entre as principais, estão a Festa de Nossa Senhora da Conceição da Praia (8 de dezembro), Santa Luzia (13 de dezembro), Bom Jesus dos Navegantes (1º de janeiro), Festa de Reis da Lapinha (6 de janeiro), Lavagem do Bonfim (em 2013, aconteceu no dia 17 de janeiro), São Lázaro (27 de janeiro), Lavagem de Itapuã (31 de janeiro) e Iemanjá (2 de fevereiro).

Entretanto, para os devotos que acompanham as celebrações há pelo menos uma década, estas festas seculares estão perdendo público ao longo dos anos, principalmente no que diz respeito à questão religiosa. Para a presidente da Associação das Baianas de Acarajé, Rita Santos, nem mesmo a Lavagem do Bonfim – maior festa em termos de público, que reúne cerca de um milhão de pessoas – consegue manter a tradição.

“As tradições religiosas estão se perdendo, porque muita gente só frequenta a parte profana. Se a gente não cuidar e fizer um trabalho melhor, daqui a alguns anos podemos perder esta festa, assim como aconteceu com a lavagem da Pituba, que não existe mais”, alerta Rita. A baiana ressalta ainda que, em ano de eleições, o número de pessoas aumenta, já que os candidatos “enchem os ônibus de partidários, que vão pela ‘gandaia’ mesmo, porque recebem camisa e água”.

Da mesma forma, a festa da Conceição da Praia tem perdido fiéis, conforme acompanhou o Portal A TARDE nos últimos anos. Em 2007, a reportagem sobre a festa trazia como título: “Quinze mil fiéis são esperados na festa de Nossa Senhora da Conceição neste sábado”. O texto informava sobre as missas realizadas na basílica e a procissão que levou a imagem da santa pelas ruas do Comércio, até retornar ao local de origem. Já em 2011, a matéria “Fiéis homenageiam Nossa Senhora da Conceição da Praia” divulgava números bem menos significativos, que somavam dois mil devotos em frente à Igreja.

Religioso x profano – Desde os 10 anos de idade, a turismóloga Luciana Nunes, de 26, homenageia a “rainha do mar” no dia 2 de fevereiro, e até hoje se emociona com o ritual. Entre as recordações marcantes da festa, estão as imagens das embarcações com presentes, flores e bilhetes, além da reunião de pessoas de diferentes religiões. Para ela, o número de fiéis na festa de Iemanjá aumentou durante os últimos anos,  mas apenas no período da tarde, quando começam os shows nas ruas e em espaços fechados. A parte religiosa, no entanto, reúne os devotos mais idosos, pais e mães de santo.

“Acho que antigamente a festa era mais verdadeira. As pessoas desciam para jogar oferendas ao mar e choravam quando viam a imagem de Iemanjá. A maioria das pessoas hoje se entrega somente ao profano, não sabe o significado de tudo aquilo e confunde com uma grande festa carnavalesca”, enfatiza.

A ‘carnavalização’ é a expressão utilizada pelo antropólogo e professor Ordep Serra para explicar o enfraquecimento das festas populares. Além da própria degradação da cidade, o fim da feira de Água de Meninos e o desaparecimento dos saveiros que levavam as frutas do Recôncavo Baiano para a festa da Conceição da Praia, o antropólogo ressalta que a massificação e a inclusão de trios elétricos contribuíram para o declínio das tradições.

“A festa do Bonfim sofreu uma baixa com os trios, até que eles foram proibidos. O samba de roda praticamente desapareceu das ruas por causa do som eletrônico, e a comunidade de pescadores que fazia a lavagem de Itapuã foi expulsa. Todas estas festas foram padronizadas igual ao Carnaval, o que fica repetitivo e chato. Por isso, as pessoas não vão mais”, explica Ordep.

A mesma expressão integra o discurso da historiadora Antonieta Nunes, para qual as pessoas querem carnavalizar todas as expressões artísticas. Segundo ela, as tradições seculares estão se perdendo com a secularização e a consequente mudança da grande religiosidade do século XIX para a perda das tradições do século XX.

“Cada festa tinha suas caraterísticas próprias. O público poderia até ser o mesmo, composto por pessoas que respeitavam diferentes santos mas, com esta carnavalização, está tudo ficando igual. Perde-se uma grande variedade cultural e de comportamento”, enfatiza a historiadora.

Violência espanta turistas – A última vez em que Rogério Ribeiro passou o Carnaval em Salvador foi em 1989. Esta informação seria apenas curiosa, se ele não fosse o presidente em exercício da Associação Brasileira de Agências de Viagens da Bahia (Abav). Proprietário de uma das 307 agências de turismo conveniadas à associação, Rogério explica que houve uma diminuição do número de turistas que chegam a Salvador por conta do quadro de violência que se instalou na cidade.

De acordo com o empresário, não existem pacotes turísticos direcionados para as festas populares, já que as empresas que atuam no receptivo de turistas preferem não se arriscar. “O fato da Bahia ser um cenário nacional de notícias de crimes pesa quando um pacote é vendido. Por isso, quem chega a Salvador prefere ficar nos resorts do litoral norte. Nas festas populares, todo turista vira alvo de assaltos”, explica Rogério.

O diretor de relações nacionais da Empresa de Turismo da Bahia (Bahiatursa), Fernando Ferrero, rebate as informações e afirma que o número de turistas para o Carnaval aumentou nos últimos anos. Segundo ele, houve um acréscimo de 5,88% de 2011 para 2012. O diretor destaca os dados oficiais da Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero), de que 883 mil turistas desembarcaram em Salvador em janeiro de 2012, contra 834 mil no mesmo período de 2011. Já em fevereiro, a cidade recebeu 601 mil visitantes em 2011 e 659 mil em 2012, um aumento de 9,6%.

Apesar dos números divulgados, Fernando concorda que as festas de bairro perderam apoio do poder público e que os roubos a turistas são frequentes. “Concordo que haja [o roubo], mas vejo acontecer no Rio de Janeiro, em São Paulo, Lisboa, Madri e Paris. Roubo de máquina fotográfica e relógio é o que mais tem no mundo inteiro, não pode ser considerado violência”, afirma o diretor.

Assim como as agências de turismo, a Bahiatursa também não possui ações voltadas para as festas populares. Como elas acontecem na alta estação, a divulgação do estado é feita por meio de workshops e feiras de turismo em outros estados. Os pacotes vendidos incluem opções de turismo esportivo, náutico, religioso, gastronômico e cultural.

Fernando explica que o papel do governo do Estado é apoiar as festas populares, cuja organização é de responsabilidade da prefeitura. Apesar disto, a Empresa Salvador Turismo (Saltur), que atua em nível municipal, informou que apenas credencia as entidades participantes e organiza os cortejos.

Fonte: A Tarde Online

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