25 de outubro de 2020

A preparação do baba

coluna-pense-nissoO calor do jogo. A adrenalina das jogadas. O momento de pura emoção do gol. A responsabilidade com o time. Todos esses fatores são igualmente presentes nas partidas de futebol profissional e amador. Porém, enquanto os craques do mercado milionário da bola encontram (como vão encontrar na Copa aqui no Brasil) estádios ultramodernos e todo o suporte necessário para a bola rolar, no futebol amador jogado na praia o campo é erguido a cada baba e os operários são os próprios boleiros, que como os clássicos artistas circenses armam o picadeiro para desfilarem seus talentos.

Tão prazeroso quanto assistir o futebol na praia é ver a preparação do baba. Onde há um ritual quase sagrado para se iniciar a partida.

Primeiro ocupa-se a faixa de areia que será transformada em estádio. Extensões com algumas dezenas de metros de comprimento delimitadas lateralmente pelo mar e barracas, e nas extremidades por linhas de fundo que só quem está no baba é capaz de enxergar, são cuidadosamente escolhidas.

Delimitada a área é hora de posicionar as traves. Essas geralmente são de madeira e levadas em três peças (dois postes laterais mais o travessão), que cuidadosa e arduamente são montadas na areia e logo após forradas com as redes para enfim ser soado o apito inicial.

E todo esse ritual obedece ao regime das marés, uma vez que nas horas de maré cheia nem os mais fominhas são capazes de jogar.

Aos olhares críticos do Jerome Valcke certamente os campos dos babas de praia estariam repletos de irregularidades, até porque neles não existem superfaturamentos, desvios de verbas públicas ou qualquer desrespeito à cultura local. Além do que, a frieza européia é incapaz de reconhecer como legítima e isenta de qualquer reparo a beleza do verdadeiro futebol: jogado à beira mar, com pés descalços e cuja a intenção é simplesmente se divertir.