5 de junho de 2020

Da Lagoa do Abaeté para a Sapucaí: conheça as Ganhadeiras de Itapuã

A escola carioca Viradouro ganhou o Carnaval do Rio de Janeiro com o enredo sobre as Ganhadeiras

O verso “Ó, mãe! Ensaboa, mãe!” ecoou na voz do público que assistia à Viradouro desfilar pela Marquês de Sapucaí na primeira noite do Grupo Especial do Rio de Janeiro deste ano. Após 23 anos de jejum como campeã do Carnaval carioca, a agremiação de Niterói conquistou o primeiro lugar com o enredo Viradouro de Alma Lavada.

No bairro de Itapuã, na Bahia, onde mulheres negras escravizadas buscavam a liberdade por meio do comércio e da arte, a torcida durante a apuração foi forte. “Parecia Carnaval baiano com direito à arrastão com trio elétrico tocando o samba-enredo”, brincou dona Maria Xindó, 73 anos, uma das integrantes do grupo artístico Ganhadeiras de Itapuã.

Para construir o desfile, a Viradouro se baseou na tese de doutorado da professora Harue Tanaka, do departamento de música da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Por meio do produtor do grupo das Ganhadeiras, o estudo etnográfico chegou à agremiação. O resultado foi um samba-enredo cadenciado, juntando as histórias contadas nas entrevistas com as moradoras do bairro de Itapuã e as informações pesquisadas por Harue.

Nem nos sonhos mais ousados, Maria Xindó imaginava pisar na Sapucaí pela primeira vez como homenageada da escola do seu coração. “Nasci no mesmo ano que a Viradouro foi fundada. Desde o Carnaval em que eles tiveram um carro incendiado na avenida. Não sei se foi pena, mas criei um amor enorme pela escola”, comenta a matriarca, que serviu como inspiração para dar vida ao enredo.

Do século 19 e início do século 20, as ganhadeiras lavavam roupas às margens da Lagoa do Abaeté, vendiam peixe e faziam outros serviços manuais no anseio de comprar suas alforrias, já que ainda eram escravizadas. Mas, assim como toda a população de afrodescentes residentes do Brasil naquela época, elas também se expressavam por meio da arte. Canto e dança nunca faltavam nos sambas de rodas organizados pelas Ganhadeiras.

Verônica Raquel, 36 anos, faz parte do núcleo jovem das ganhadeiras e participou do desfile representado a mãe lavadeira. A integrante revela que o grupo nasceu, em março de 2004, como um meio de resgatar a memória afetiva do bairro. “Em uma reunião de moradores, minha tia Ana Maria da Conceição falou das ganhadeiras, e todos começaram a relembrar memórias com elas. A partir daí a história foi sendo desenrolada e ao mesmo tempo escavada, porque ela estava soterrada”, afirma.

Hoje, o repertório musical é vasto, mas sempre acompanhado de tambores. As canções possuem letras que carregam a história oral, que os moradores do bairro ouviam dos pais e avós, e os clássicos do samba de roda. Além das mulheres, crianças e homens também fazem parte do grupo.

Sobre a importância da homenagem, Verônica fala: “elas não derramaram sangue à toa pra que ninguém falasse delas. Ainda mais nesse cenário político, a mulher precisa estar no poder e saber de onde elas vieram. Então, as Ganhadeiras vieram pra isso: entoar a voz dessas mulheres que muitos anos foram caladas”, complementa.

Para as ganhadeiras, ancestralidade é uma linha inquebrável. O que explica a presença de várias gerações dentro do grupo. Maria Hermelina, conhecida como Dona Mariinha, 85 anos, conta com orgulho: “sou nascida e criada em Itapuã. Minha mãe e minhas avós sempre lavaram roupas para conseguir dinheiro para sobreviver. Fui uma das fundadoras, agora tenho neta e bisneta participando desse projeto cantando e dançando”, conta emocionada.

A Viradouro não deixou de valorizar essa vertente rica da história dessas artistas. Tanto que o samba-enredo foi embalado por elementos do afoxé, ritmo que surgiu em Pernambuco, mas que tem presença forte na cultura musical baiana. Viradouro de Alma Lavada certamente entrou para a categoria dos clássicos sambas cariocas. Axé, Ganhadeiras!

Fonte: Claudia / Abril