27 de novembro de 2020

Itapuã volta a ser celebrado pela cultura popular e no Carnaval da Viradouro

Um dia depois da estreia do Male Debalê, bloco afro com sede em Itapuã, no Carnaval de Salvador 2020, e a 1.632 km da capital baiana, 20 mulheres do grupo As Ganhadeiras de Itapuã entrarão na Marquês de Sapucai, às 22h30, do dia 23 de fevereiro, como homenageadas da Unidos do Viradouro.

Assim como aconteceu com as canções de Caymmi inspiradas na vila dos pescadores, e dos afrossambas impulsionados por Vinícius de Moraes nas décadas de 1960 e 1970, o mais poético dos bairros soteropolitanos vai entrar outra vez em evidência.

Criado em 2004 pelo coordenador da Casa da Música, Amadeu Alves, o grupo resgata através da arte a tradição de mulheres negras do bairro que ganhavam o sustento no século 19 lavando roupas da classe média na Lagoa do Abaeté ou vendendo peixes e outros alimentos em balaios pela cidade.

Itapuã tenta resistir à ação do tempo. “Temos uma raiz histórica muito forte”, afirma Alves, nativo do bairro que também é integrante da ONG Grupo de Revitalização de Itapuã, cujo acrônimo, Grita, não deixa de ser curioso em um bairro assolado pela poluição sonora. Nos últimos anos, sempre figura entre os locais com mais denúncias.

Bares com música ao vivo nas alturas e automóveis com alto-falantes não são uma exclusividade local. Todo mundo lembra do carro do ovo, não? Mas o barulho feriu de morte a imagem que havia sido consolidada da antiga vila de pescadores, primeiro por Caymmi e depois por Vinícius.

Depois de estacionar o carro a dois quilômetros do Farol da Barra e sair caminhando com a esposa, na intenção de lhe mostrar o barzinho da orla em que tinha escutado MPB na sua primeira visita a Salvador, em 2013, o administrador de empresas brasiliense Sandson Azevedo teve que passar batido. “Há uma outra vibe lá, com sertanejo, samba, pagode”, relata Sandson . “Não estou dizendo que é pior ou melhor, mas não remete mais àquela calmaria da música”.

Sua mulher, a psicóloga Helen Alves, não ficou particularmente impressionada com o Farol de Itapuã. “Eu tinha visto a foto, sabia que era mais simples do que aquele de Salvador, que tem uma estrutura melhor ao redor”, afirma, referindo-se ao Farol da Barra, como se Itapuã fosse um lugar não soteropolitano.

Candeeiros

No início do século passado, a maior zoeira para crianças era a chance de correr com candeeeiros nas mãos a fim de iluminar a pista para os pousos noturnos de aviões da francesa Aeropostale, que trazia cartas da Europa, como narra a escritora Tania Risério d’ Almeida Gandon, no livro A Voz de Itapuã.

O desafio atual para o bairro vizinho ao aeroporto é ser parte da cidade e manter a tranquilidade do passado. Algo que é razoavelmente possível para os condomínios de classe média alta em ruas onde quase não circulam veículos de não moradores.

A mesma tranquilidade que seduziu há 35 anos Hamilton Souza, que saiu ainda criança do sertão, de Serra Preta, município vizinho a Feira de Santana, para reencontrar parte da família. Tinha medo de água. Quando viu Itapuã pela primeira vez, emocionou-se e perguntou ao pai, que trabalhava em uma barraca, se aquilo tudo era o mar. Agora fala que Itapuã é seu país. Uma terra que começou a abraçar como quem segura em uma boia para não submergir.

Apresentado aos salva-vidas, que lhe ensinaram a nadar, aos 11 anos torcia secretamente para que houvesse afogamentos na praia. Assim podia segurar na parte rasa da praia a corda que os seus novos amigos vestidos de vermelho jogavam durante a operação de socorro. “Eu sentia que estava ajudando a salvar uma vida”, lembra Hamilton. Mas não era isso que pensavam os salva-vidas, que gritavam rindo que o moleque era meio doido.

Com o incentivo de um empresário que morava de frente para o mar, Hamilton aprendeu a usar barco a vela, windsurf e caiaque. Numa época em que Itapuã estava repleta de barracas de praia com uma superestrutura, e tinha competições marítimas que levavam para o bairro a classe média de outras regiões da cidade, Hamilton, já adulto, virou instrutor de esportes náuticos, sobretudo para turistas.

Com o fechamento das grandes barracas, que ocupavam uma imensa faixa de areia com seus bancos e sombreiros, e o consequente afastamento do público ligado a esportes, Hamilton teve que abrir a sua pequena barraca: o Escritório do Guardião do Mar. “Eu vendo bebida, mas meu sonho é voltar a alugar caiaque”, declara.

O fechamento das barracas também diminuiu drasticamente a renda dos pescadores, que perderam as encomendas de peixe fresco desses comerciantes. “Com o óleo (vazamento de óleo nas praias, no ano passado), diminuiu o movimento ainda mais. Só quem compra é o comedor”, diz o pescador Hélio Silva Ribeiro, referindo-se ao consumidor final do próprio bairro.

Pescadores

A vida simples dos pescadores foi o primeiro ícone itapuãzeiro, eternizada na música. Dorival Caymmi já estava no Rio de Janeiro quando começou a fazer sucesso narrando as coisas da Bahia. “O que Caymmi fez foi contar o que via em seus veraneios”, diz o escritor Luiz Eduardo Dórea, autor de História de Salvador em suas ruas, que atualmente pesquisa as pedras do mar da capital baiana.

O Rio de Janeiro cruzou outra vez com Itapuã quando a atriz e modelo baiana Gessy Gesse conheceu por lá o poeta Vinícius de Moraes. Os dois viajaram ao Uruguai, se apaixonaram e o poetinha construiu em 1971 o imóvel que seria a residência do casal durante sete anos. Adquirido por empresários, o imóvel manteve a base do projeto dos arquitetos Jamison Pedra e Sílvio Robatto, e foi transformado na Casa di Vina, restaurante e memorial, com diversos artigos pessoais do diplomata que virou uma espécie de embaixador do bairro.

Um calção de banho, velho, um biquíni de Gessy, uma máquina de datilografia Smith Corona Classic, fotos, recortes de jornal, obras de arte e algumas de suas bebidas preferidas. Um licor Southern Comfort, um bourbon Jim Bean e dois uísques, Old Parr e Black White, todos com menos da metade do conteúdo.

O suficiente para abrir o apetite sobre a Itapuã de Vinícius. “É a história do Brasil. É muito emocionante. Para quem conhece, é importante estar aqui e ver isso”, afirma a analista de recursos humanos paulistana Prisciane Braga, que pegou um ônibus na Barra só para conhecer a casa.

“Os clientes gostam da sensação de almoçar ou jantar na casa de Vinícius”, diz a gerente Tamiris Drumond, pentaneta de outro poeta, Carlos Drummond de Andrade. No próximo Carnaval, quando a Viradouro desfilar no Sambódromo, haverá outro encontro entre o Rio e o mar de Itapuã.

Fonte: A Tarde