Mestre Itapoan, 50 anos de pura capoeira

Meio século de dedicação a uma arte que é genuinamente baiana, mas tem fama internacional. Para Raimundo Cesar de Almeida (67), “falar de amor em Itapuã” é sinônimo de falar de Capoeira, a filosofia de vida que o transformou no mestre Itapoan.

Mestre Itapoan e Rico 1965 em Itapuã / Foto: Capoeira Luandaê

A escolha de entrar para o universo da capoeira veio bem cedo. Aos 17 anos, mestre Itapoan já era aluno de Mestre Bimba, educador e criador da capoeira regional. “Pedi dinheiro à minha mãe para me matricular no judô, mas acabei me matriculando na capoeira”, conta. Para ele, mestre Bimba foi um grande suporte, visto que havia perdido o pai recentemente. “Ele era amável, mas também muito duro quando precisava, um grande professor”, comenta, sobre Bimba.

O desempenho do mestre itapuãzeiro foi aos poucos conquistando a simpatia de Bimba bem como premiações nas disputas e torneios. Em 1972, fundou a Ginga Associação de Capoeira, que hoje funciona como centro de treinamento e desenvolvimento de projetos sociais. Três anos depois, foi campeão da “Taça Mestre Bimba no Jubileu de Prata F.B.P.” como técnico da Ginga. Mais tarde, conquistaria o tricampeonato baiano de Capoeira, nos anos de 1976, 77 e 78. Em 1980, cria a Associação Brasileira dos Professores de Capoeira (A.B.P.C.), da qual é presidente, atualmente. Três anos depois, Itapoan funda a Federação Baiana de Capoeira, a qual integra o Conselho de Mestres.

Além da vasta experiência na capoeira, mestre Itapoan é formado em Odontologia. Atuou como professor da Universidade Federal da Bahia por 36 anos, mas optou por seguir com a capoeira. “Meu pai sempre foi mais capoeirista do que dentista. Ele é apaixonado pela capoeira. Depois de se aposentar do ofício, passou a se dedicar apenas a ela”, conta a filha de mestre Itapoan, Erica Carvalho (24).

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Mestre João Grande e Itapoan em Ny 2012 / Foto: Capoeira Luandaê

Capoeira nos quatro cantos

Mestre Itapoan é um dos grandes responsáveis por exportar a tradição para outros países. Recentemente, passou dois meses na Europa ministrando palestras e aulas aos estrangeiros. “A aceitação da capoeira no mundo é algo impressionante. Há 20 anos ninguém imaginava que teria capoeira em Israel, na Holanda. Todos os movimentos são ensinados em português. A capoeira é a maior difusora da Língua Portuguesa no mundo”, reforça.

Para Itapoan, a capoeira se sobressai comparada a outras artes marciais como judô e karatê. “Enquanto esses mostram somente a luta, a capoeira envolve música. O treino da capoeira é sempre uma grande festa, muito rica, agrega ginástica, música, folclore. Com a capoeira, aprendi história do Brasil que não foi ensinada na escola”, destaca.

Ele explica que a capoeira pode ser dividida em dois estilos: primitiva/Angola e regional. A primeira é mais lenta, semelhante a uma dança com aspecto mais folclórico. Já a segunda, criada pelo mestre bimba, é a mais praticada, sendo mais voltada para o esporte, defesa pessoal. “Hoje existem mais de 150 países onde a capoeira regional está presente. A tradição foi decretada recentemente pelo Ministério da Cultura, patrimônio imaterial da Bahia e do Brasil. Agora existe uma luta para que a Unesco reconheça também como patrimônio imaterial mundial”, afirma o mestre.

Novo esporte?                                                    

Embora considere que a capoeira é uma luta dinâmica, repleta de composições como música, ginástica e dança, mestre Itapoan descarta a possibilidade da manifestação cultural venha a se tornar esporte olímpico. “Existem federações que tratam a capoeira única e exclusivamente como esporte, mas a prática é muito rica para ser considerada apenas um esporte. Eu sou contra a entrada da capoeira nas Olimpíadas, por exemplo, pois perderia muito da sua essência. Aliás, não tem espaço para a capoeira em um mundial como esse, pois já existe ginástica de solo, olímpica, rítmica, então seria algo muito complexo”, pontua Itapoan.

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Mestre Bimba / Foto: gingacapoeira.com

Na opinião de André Luis Santana (36) conhecido como o mestre Biriba, mestre Itapoan sempre foi uma grande referência para formação de grupos de capoeira no bairro. “Tive a oportunidade de aprender os fundamentos, história e legado da capoeira regional. Seus ensinamentos contribuíram muito para a formação dos capoeiristas do bairro”, ressalta.

Vale destacar que mestre Itapoan é autor de vários livros de abordagens sobre a capoeira, além de possuir um acervo com mais de 30 mil documentos sobre a modalidade. “Tenho livros, revistas, jornais. Tenho vontade de disponibilizar isso ao público, mas ainda não pude contratar uma bibliotecária para organizá-los e possibilitar isso”, diz.

Aos 67 anos, Itapoan lembra quantas mudanças já presenciou no bairro que sempre carregou como apelido. “Quando comecei a aprender capoeira, aqui em Itapuã não tinha nada. De lá pra cá eu e meus amigos, que também praticavam, aprendemos muito e ensinamos. E ainda fazemos tudo para incentivar a formação de novos grupos para que outras pessoas também façam um trabalho legal”.

“Conheço muitos grupos que trabalham com jovens que são envolvidos com drogas e graças à capoeira, acabam saindo dessa vida perigosa. Sem dúvidas, a capoeira é um caminho para ensinar a disciplina e o respeito”, comenta Erica Carvalho.

Enquanto os discípulos de Itapoan perpetuam a capoeira por aí, o mestre ainda não quer descansar. “A gente não deixa a capoeira, é a capoeira que deixa a gente”, diz. Por isso, os 50 anos da atividade serão celebrados em grande estilo, no “Ginga sem limite” – evento que reúne capoeiristas do mundo inteiro, entre os dias 23 e 27 de julho.

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Grupo Ginga de Siribinha

O encontro internacional de capoeiristas é tradicionalmente realizado de dois em dois anos pelo mestre. O “Ginga sem limite” contará com rodas de capoeira, shows, corrida do capoeirista na praia e muita “papoeira” (conversa sobre capoeira, segundo Itapoan). A festa acontece na Praia de Siribinha, no município do Conde.

Fonte: ItapuãCity | Camila Barreto

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