22 de outubro de 2020

“Se tu queres um amigo, cativa-me”

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O século XX deixou como herança a marca da solidão e a busca desenfreada por algo que satisfaça. É comum vermos pessoas reclamando da vida, num processo de dor constante e insatisfação plena. Também viraram rotina as reclamações de pessoas cujos relacionamentos lhes apresentam dissabores. É o amigo que reclama do amigo, é o namorado que reclama do seu par, o pai que reclama do filho e este daquele e por ai segue. O grande problema é que o ser humano sempre depositou suas expectativas e possibilidade de ser feliz no outro. Com o advento de um século carregado de tantas inovações e de uma vida agitada, típicas dos nossos dias, esse comportamento encontrou o abismo. E aqui encontramos o nosso desafio: cativar as pessoas para sermos por elas cativados.

Foi assim que o Pequeno Príncipe se viu cativado pela Raposa e fez o mesmo a ela. Nossa marca maior é o egoísmo, por isso sempre esperamos que o outro nos faça e nos dê algo e só o fazemos quando pensamos que a outra parte merece (já que nos fez primeiro). A lição do Pequeno Príncipe é clara e oposta a isso: “Se tu queres um amigo, cativa-me”! Começamos a entender que o princípio da conquista deve partir de nós e não das pessoas e que fazer o outro feliz deve ser nossa meta diária. Quando Maricotinha Frufru entender que precisa fazer Joãozinho Azeitona feliz e que a felicidade dela não pode estar condicionada ao que ele faz e quando o mesmo Joãozinho entender (e praticar) isso, ambos estarão completos e felizes. Se as pessoas, em qualquer que seja o tipo de relação, entendessem esse princípio, não haveria cobranças, não haveria dissabores, não haveria solidão nem rupturas.

A denúncia da Raposa bem serve para uma reflexão: “Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos”. Não é bem nossa essa realidade? Daí que as pessoas se sentem sozinhas, mesmo cercadas por tantas outras. Faltam-nos amigos, mas também falta em nós o sacrifício para sermos esse amigo que tanta gente necessita. Deveria ser nosso desejo maior fazer a diferença na vida das pessoas, ser o ombro amigo, a mão estendida, o sorriso dado, a escuta sensível no meio de tantos que buscam apenas a satisfação dos seus desejos. Ainda insistimos em convidar a Raposa para nos ensinar algo. Ela diz: “Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo”. O mundo está carente disso, as pessoas buscam desesperadamente quem faça essa diferença nelas, por isso não podemos nos prender em nosso capricho, na nossa necessidade apenas, porque certamente outros vivem em situação emocional pior do que a que agora experimentamos.

Entendemos que o processo de cativar deve ter mão dupla, mas se isso não acontecer, não nos cansemos de fazer o bem e de colocar como meta fazer o outro feliz. O resultado virá, de uma forma ou de outra. Roberto Carlos expressou esse desejo cantando: “Eu quero amor decidindo a vida, sentir a força da mão amiga, o meu irmão com sorriso aberto. Se ele chorar quero estar por perto. Quero levar o meu canto amigo
a qualquer amigo que precisar”.

Esse pensamento deve permear todas as relações: Que os pais se vejam aqui e os filhos também. Desejamos que os namorados enxerguem-se como responsáveis direitos por isso e que os casados também se esforcem para. Isso porque “Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Desejamos que o leitor não se esqueça disto: você é responsável pela pessoa a quem escolheu para estar ai, bem do seu lado. Neste exato momento você pode fazer dela a pessoa mais feliz sobre a terra.index