29 de novembro de 2020

Somos os escritores da nossa história

Destaque Homens - Deixo

Ontem recebi a triste notícia do suicídio de uma ex-aluna da faculdade. Para os órgãos, mais uma nas estatísticas. Para nós, a dor de quem perde e não entende as motivações que levam uma pessoa cheia de vida e de planos a um ato de desespero tal que culmina na retirada da própria vida. Certamente que ela se enquadra no perfil de tantos outros que vivem as angústias de uma existência carregada de dissabores. As tensões e pressões da vida, associadas à solidão que caracterizam a pós-modernidade tornam-se um teste de resistência para o homem. É possível ver crianças estressadas, depressivas, doentes. Nos adultos, os registros são assustadores e colocam diante de nós o desafio de viver bem ainda que tudo esteja mal.

É certo que assim como as estações vem e vão, também temos os momentos bons e ruins ao longo dos anos que nos são outorgados. É certo que todos, em algum momento, já experimentaram o inverno em suas vidas. São momentos caracterizados pelo frio, pela ausência do sol, pela neve ou pela chuva. Não há cores, senão o cinza que insiste em marcar as manhãs e as tardes e o negro intenso que domina as longas noites. Não há as grandes festas, tampouco amigos a brincar nos parques. É quando, olhando para árvore seca, pensamos que tudo acabou e que já não há solução para o que nos inquieta. Esquecemos, porém, que o inverno revela uma árvore sem frutos, sem flores, sem aparente beleza, mas não sem raiz. Ela sim, é a diferença neste momento marcante. A árvore pode estar seca, mas há água na raiz, há seiva, há vida.

Nós somos esta árvore!! Em momentos de grandes dificuldades Jó exclamou que ao cheiro das águas a árvore brotaria e daria novos frutos e não será diferente conosco. Ainda que o choro do homem dure toda uma noite, a alegria virá ao amanhecer. Tão certo como é a chegada do dia após a noite é o fim do inverno para os que vivem momentos escuros. Pode ser que a noite dure dias, se estenda por meses ou anos, mas ela vai passar. Pode ser que a dor seja intensa e que as lágrimas insistam em banhar a nossa face, mas tudo chegará ao seu fim e, em seu tempo, a árvore seca tornar-se-á verde. Viveremos os dias de primavera, quando as flores trarão colorido à existência, quando o sol nos será por companhia e as festas serão anunciadas, trazendo consigo os convidados. As árvores, agora em seu esplendor, lembrarão que o inverno é o preparo da raiz para o espetáculo ofertado a todas as gentes. Quando as pessoas olharem, poderão se admirar e é certo que algumas não entenderão como uma planta tão seca e feia transformou-se em algo tão cheio de beleza e vida. Nos saberemos! Certamente que sim.

Para os que estamos vivendo dias difíceis, como viveu minha amiga e ex-aluna, é preciso ter certeza de que um novo dia vai chegar e trará consigo os raios inconfundíveis do Sol Maior. As dificuldades não podem ser o fim, tampouco a dor e é possível, sim, que em todas estas coisas sejamos mais do que vencedores. Nelson Mandela viveu isso e todos os que conhecem sua podem entender. Ao seu lado, embora separado dele por época e lugar, pode-se ver Willian Ernest Henley com o famoso poema que inspirou o grande líder da África do Sul:

“Na cruel garra da situação,
Não estremeci, nem gritei em voz alta.
Sob a pancada do acaso,
Minha cabeça está ensanguentada, mas não curvada”.

É o mesmo Ernest que, ainda nesses versos afirma sua determinação em jamais se render às circunstâncias tenebrosas. Ele encerra e diz:

“Não importa quão estreito o portal,
Quão carregada de punições a lista,
Sou o mestre do meu destino.
Sou o capitão da minha alma.”

 Quando a noite nos trouxer solidão e frio, quando a estrada parecer longa demais e fomos tentados a pensar que as coisas boas só chegam para os sortudos, precisamos lembrar disto: Muito abaixo da gélida neve descansa uma semente que, como amor do sol, na primavera, se tornará uma rosa.

KIA KAHA!!